6.2.08

everything's magic

Ela abriu os olhos. Estivera acordada por um punhado de minutos, mas continuava de olhos fechados, enrolada em colchas fofas. Seria a mesma coisa de todos os dias, ela pensou ao ver sua irmã ao seu lado, parecendo ansiosa. O mesmo tédio de todos os dias, aquelas horas que pareciam não passar.
Sua irmã murmurou alguma coisa. Algo como "a vovó foi pro céu". Naquela hora, ela sentou-se bruscamente na cama, puxando o ar gelado para dentro dos pulmões. Seus olhos estavam levemente arregalados e a pulsação de seu coração pareceu ficar mais alta. Nem mais rápida e nem mais lenta, só mais alta. Como se estivesse gritando que estava ali. Procurou alguma prova de que ela estava mentindo, mas ela sabia que era verdade - estava esperando por isso - e gritou para a outra que se retirasse do quarto.
Ainda tentando acreditar que aquilo era um sonho, afundou a cabeça no travesseiro fofo. Então algo vibrou e uma música de sua banda favorita encheu seus ouvidos. O celular. Com desânimo, ela o atendeu - "Luh? Adivinha, eu fiquei com dois meninos ontem e-" foi o suficiente. Ela se levantou da cama, hesitante. Chamou o nome da amiga uma vez e depois outra. Então disse o que tinha acabado de lhe ocorrer - "ela morreu".
Fechou o aparelho e o jogou na cama, anestesiada. Ela estava arrepiada, o quarto estava frio em demasia e seu coração parecia ter parado de pulsar. Correu até o banheiro, que estava quente, mas a sensação de frio continuou. Algumas lágrimas escaparam de seus olhos, e depois outras e mais outras. Estava em choque, algo demasiadamente diferente, desconhecido. Nunca sentira aquilo. Nunca.
Escovou os dentes e soltou a franja, limpando as lágrimas. Lembrou-se das outras palavras de sua irmã: "não conta pra ninguém que eu te falei?", e esfregou as bochechas já vermelhas por causa do choro. Saiu do quarto, desceu as escadas e rumou até a cozinha.
Seu pai a olhou, preocupado, com uma expressão séria. Ele tinha sido a preocupação dela desde fevereiro do ano passado - data em que tudo começou - e estava ali, sério, demonstrando dor, e não tristeza. Abraçou-o e isso foi o suficiente para que começasse a chorar, soluçando involuntariamente. "Eu não me despedi dela, pai". Ela queria falar algo a mais, mas não sabia o que falar. Não sabia como. Não sabia o porquê. Tudo ainda parecia um sonho - daqueles que você só quer acordar - e era duro demais, frio demais, cruel demais...
Saiu andando. Tomou seu leite de toda manhã, cumprimentou as outras pessoas na casa e foi até sua mãe. "Seu pai te contou, filha? A vovó faleceu". Novamente. Ela balançou a cabeça afirmativamente e saiu andando de novo, os dedos tremendo.

O resto de seu dia foi assim. Distraiu-se com uns amigos e decepcionou-se com outros; por que eles lhe falavam coisas fúteis ao invés de perguntar se ela estava bem, como ela sempre fazia? Como eles conseguiam se preocupar em beijar qualquer um quando ela ali sofrera por um ano inteiro, com medo de sair todo santo dia e voltar e encontrar uma notícia ruim? Alguém se esquecera do 27 de agosto? Alguém lembrava de suas feridas? Não. Porque ela não conseguia entender como ela já carregava tanta coisa e aqueles que deviam se importar não faziam nada. Acalmou-se ao falar com apenas uma pessoa - tirando o apoio de outras maravilhosas, que arrancaram sorrisos - mas na hora do banho, lembrou-se dos bons momentos.
Do pão de queijo minúsculo que ela não cansa de contar pra Deus e o mundo o quanto é bom. Dos olhos verdes que ela sempre invejara e sempre pedira para trocar. Dos dias em que dormia na casa dela, dos dias em que ia para o trabalho com ela, do dia em que ela se mudou, do dia em que ela chegava na outra cidade só para vê-la, dos dias em que a tirava da loja só para comprar coisas idiotas. Da promessa que ela nunca lhe cumpriu, das broncas que ela lhe deu e do pote marrom onde sempre havia balas para ela.
Agora ela olha para a tela do computador e para seus dedos, que não param. Ela se pergunta o que vai ser da vida dela sem esse imenso pedaço. Ela se convence de que nunca vai tapar isso. A menina chora, treme e sorri - tantas lembranças maravilhosas, a voz dela, o inglês dela, os dias em que ela perdia no Trem Mexicano... O dia em que descobriu sua maldita doença - que Deus a perdoe, porque ele sabe o que faz. O dia em que a viu ter uma convulsão e chorou. O dia em que ela entrou numa ambulância. Mas, principalmente, o dia em que ela a pegou no colo, a abraçou e disse "eu te amo".

Eu te amo, vó. Eu te amo. E dói. Dói demais.


Inês Silva Pego
minha heroína, meu exemplo, pra sempre. E sabe do que mais? Eu tenho certeza de que você tá no céu agorinha, olhando pra mim com esses olhos verdinhos, os mais lindos do mundo.