"- Hoje eu sonhei que meu pai recebia uma oferta de trabalho em Londres. No sonho, nos mudávamos pra lá e minha mãe começava a trabalhar num restaurante brasileiro. Ela se recusava a falar inglês. - ela colocou o pedaço de E.V.A. sobre a mesa e largou a tesoura no estojo, chamando a atenção da amiga. - Imagina só!
- Você e sua Londres. - sua amiga lançou um olhar torto para ela. Seus olhos estavam brilhando. - Eu não sei o que você vê lá.
- Sabe, eu fiquei pensando... - poucas pessoas na classe. Silêncio quase total. A professora de Artes dava risada de alguma piadinha de seus amigos. - Eu poderia ficar aqui, me formar, passar numa faculdade, ter um diploma, me casar, ter filhos e poder morrer em paz. Mas... Isso é meio chato, não é? - ela se levantou, com um olhar sonhador focado no rosto da amiga. - Eu não conseguiria. Eu quero... Eu quero conhecer outros lugares, outras línguas, outras culturas. Não sei se preciso de faculdade. Quero poder viajar por aí, ou simplesmente... fazer o que eu gosto...
- Mas por quê?! Todos querem apenas uma vida normal. Se tiver algo diferente, ótimo. Se não tiver... Você viveu, não viveu?
- Eu não quero ser assim. - subiu na cadeira, chamando a atenção de alguns perdidos. Seu sorriso bobo chamava a atenção de alguns. - Eu não quero fazer uma faculdade normal, casar com um cara normal e ter filhos normais, pra morrer normal. Eu quero ir pro outro lado do mundo e só então decidir o que eu quero da vida. E já tenho certeza de uma coisa: não vou simplesmente me conformar em ter uma vida normal.
- Você não pode mesmo... Você é anormal.
Desceu da cadeira. Guardou as idéias no fundo da cabeça e voltou a recortar patinhos no E.V.A. verde. Mas não conseguiu fechar o sorriso bobo nem apagar o brilho dos olhos."