"E porque eu gostava dele, gostava de verdade dele, não conseguia ver seus defeitos - por isso que eu estava tão absurdamente encantada. Também, eu não poderia evitar. Ele tinha tudo que um cara precisava ter e algumas coisas a mais, tanto que eu estava feliz só de ser sua amiga. Sempre gostei dele, como pessoa mesmo. Nunca fui apaixonada. Talvez porque eu sempre me segurava perto dele... Ah, eu esquecia de respirar também. Seus olhos me faziam parar um pouco, como se faltasse oxigênio ou como se eu passasse a inalar algum outro gás imaginário que acelerava meu coração junto. Mas apaixonada? Acho que não. Encantada é realmente a palavra certa. Ainda bem que eu nunca caí no que as pessoas falavam ao nos ver abraçados, ou de mãos dadas, porque isso foi o que me salvou de ficar com o coração partido na hora de acordar.
Eu acordei. Me acostumei com a cor de seus olhos, que outrora transformava minhas pernas em geléia, e parei de ficar tonta com seu perfume. Sua mão na minha já não se encaixava tão bem, e eu conseguia ficar mais "sóbria" perto dele, um pouco mais confiante. Até consegui me limitar a sorrir de lado quando ele pegava seu violão e começava com o que parecia uma serenata... Ao invés de abrir um sorriso bobo que aparentava coisas que nem existiam. Realmente, foi só eu acordar para não agir mais como uma abobalhada - e perceber que, na verdade, ele não era tudo aquilo que eu pensava ser. Quer dizer, era, mas eu simplesmente... não me surpreendia mais. Foi aí que comecei a ver seus defeitos. Por ser muito bonito, ele já tinha no "currículo" uma grande variedade de amigas minhas; por ser garoto, ele ficava extremamente bobo quando se juntava a outros exemplares do sexo masculino; por ser, bom, quem ele era, às vezes eu precisava contar até dez para ter paciência e não ser muito ignorante. Porque ele adorava implicar comigo. Ah, se adorava... Tudo era pretexto para me dar algum fora, ou para zombar da minha cara. No começo, era eu quem parecia a boba perto dele, e de repente estava exatamente ao contrário. Acho que finalmente entendi sua frase preferida. Depois de tanto tempo... Pensei que nunca fosse me curar da insanidade mental..." (...)