25.4.09

not gonna waste these words

"Ela afundou os dedos na areia, enterrando-os o máximo que pôde. Desviou o olhar, abaixou a cabeça e esperou a jorrada de lágrimas. Não veio. Forçou-se a encontrar os olhos dele, do mesmo azul revolto da cor do mar, sibilante, suas ondas batendo e quebrando-se como se fossem a trilha sonora.
Trilha sonora do que estava longe dum filme romântico ou um romance que valesse o tempo gasto sofrendo pelos personagens. Ele era como o mar, imprevisível, forte, impondo suas vontades sem se importar com os resultados, tão belo e tão perigoso; já ela era a lua, refletindo o brilho que recebia, iluminando as noites mais escuras – e o mar dependia dela, numa ligação estranha. Eles funcionavam perfeitamente por estarem distantes.
A distância, a mesma que os deixava perfeitos um para o outro, era o que os impedia de qualquer outra aproximação.
- Eu... – ele vacilou, passando uma mão pelos cabelos claros, que hora ou outra pingavam uma gota da água salgada da mesma cor do seu olhar. – Eu sinto muito.
- Não sinta. – sua voz, embora calma, refletia a tristeza que emanava dele. Ele, seu tão adorável menino. Tão seu quanto as gotas do oceano.
- Queria que fosse diferente. Não quero ir embora. – docemente, sua mão gelada puxou a dela, tirou o excesso de areia na ponta dos dedos finos e delicados e os entrelaçou nos seus. E seu olhar se prendeu no céu, onde o sol já se punha.
Ela intensificou o aperto de suas mãos, mordendo o lábio inferior para tentar ignorar a dor no coração. Porque doía. Ridiculamente.
- Não fomos feitos para ficar juntos. – com a outra mão, segurou o queixo dele e o virou na sua direção. – Só nos causamos mais dor. Eu não... não quero viver assim.
- Mas eu não posso te dizer adeus. Eu sei que eu já disse, mas não o quis.
- Você sempre me falou adeus. Eu acreditei. – ela sustentou seu olhar.
Ele sacudiu a cabeça uma, duas vezes, e adiantou-se para abraça-la. Passou os braços por seu corpo, sentindo o calor, o perfume doce de sua pele frágil, e beijou o topo de sua cabeça, controlando-se para não encontrar um motivo para beijar também seus lábios. Como uma despedida, uma última vez.
- Eu nunca vou embora. Eu sou seu. Por mais que eu vá para longe, não vou partir realmente. – colou suas bochechas, e com uma voz suave que saía no pé de seu ouvido, completou: - e eu vou voltar. Sempre vou. Como as ondas.
O silêncio preencheu suas lacunas, outrora cheias de dúvidas, enquanto a lua roubou seu lugar no céu, agitando o mar. O espaço entre eles era inegável – uma mistura da própria distância e do tempo – mas sua beleza também. Olhando-se atentamente para o mar, podia-se ver o reflexo branco da lua, balançando-se no mesmo ritmo, como uma carícia. Cruel era não poder junta-los, e mais cruel ainda era ver como ficavam completos juntos."