Escrevo para falar. E se escrevo para falar de algo, não precisa ser necessariamente sobre mim. Que posso eu falar sobre mim sem ter a visão distorcida do meu próprio olhar? E falar sobre o que não seja meu... Não é isso um atrevimento? Falar sobre o que meu olhar guarda é como por uma fita para rodar, para tocar - pego as formas de minhas lembranças e as traduzo em letra após letra. Mas, afinal, quem sou eu para usar as palavras da forma que quero? Não é certo usar algo ou alguém, é?
E o que é certo? E o que não é? Quem disse que existe o certo e o errado e tudo que fazemos tem que ser classificado em alguma dessas duas opções? Nunca ouvi dizer que há uma cartilha modelo para mais de seis bilhões de pensamentos desconexos e livres - livres como pedaços de matéria correndo no vácuo do universo. Agora pense no tamanho do universo. Saboreie essa palavra. Universo. Que somos nós perto dele? Nada. Somos menores que poeira, perto da imensidão do eterno céu negro. E estrelas? Não são elas como palavras? Feitas para iluminar, clarear, mas sob o comando de algo muito maior...
E o comando maior? Quem comanda o chefe? Ele mesmo? Será que isso não leva ao fato de que... Quanta confusão! Afinal, podemos falar ou não? Podemos ser? Podemos mandar? Podemos... escrever?