Já dizia Meredith Grey, “por que eu fico me batendo com um martelo? Porque é bom quando eu paro”. Porque é bom quando pára, quando acaba. E o alívio só vem com a dor. Vale a pena passar por ela? E se a dor for forte demais e me dilacerar? E se ela nunca acabar? E se eu não agüentar me bater?
Dor. Precisamos dela. Acho que precisamos dela mais do que precisamos do alívio. Queremos a dor pra nos sentir vivos, sozinhos, como se fossemos as últimas pessoas no mundo – porque quando somos resgatados, quando ficamos felizes novamente, esse sentimento supera tudo que deixamos para trás. Quantas vezes não sofremos por um jogo de futebol só para gritar quando ele ganhar, no final? Quantos filmes já não vimos, agoniados, só para no final tudo ficar feliz para sempre? O bem e o mal andam de mãos dadas. E nós? Nós andamos no meio dos dois. Uma mão para cada um. Só que, às vezes, somos mais puxados para um lado. Para, depois, sermos puxados para o outro. Sempre.
Ultimamente, tenho andado de mãos dadas com o mal. Tenho deixado-o bem próximo de mim: mágoa, raiva, descrença, sofrimento, ciúme. E o caminho que estou seguindo tem uma parede de vidro no meio: consigo ver a hora em que vou me soltar totalmente do bem. Para continuar e chegar até o fim da parede, vou precisar usar cada gota de força que tenho. Vou precisar ignorar o mal, que vai me pedir para ficar ali mesmo, parada. Mas ao chegar à divisão, eu me pergunto... Vale à pena?
Essa pergunta ecoa. Vale... Vale? Vale? Eu tenho medo. Eu quero soltar a mão do mal e seguir com o bem, pelo outro lado da parede. Mas não consigo. Eu... Não... Consigo.
Se o bem me puxasse, eu conseguiria... Mas ele anda distraído ao meu lado, tocando apenas a ponta dos meus dedos. Ele anda de cara virada para mim, e não ouve quando chamo sua atenção. Por que será que ele não me ouve? O que será que eu estou fazendo? Será que ficar me martelando é uma coisa ruim, e ele fica bravo quando vem só depois de eu me machucar propositalmente?
É uma contradição. O bem e o mal. Eu, e eu. Só. Nós três, e o resto do mundo, e o meu mal em forma física. Por favor, por favor, tirem o martelo da minha mão.