5.10.09

I'm done with awkward situations, empty conversations

Olhos nos olhos. Primeiro passo. Era só não desviar – e arrumar coragem para começar a falar.
- Olha, eu... – ela vacilou. Seus olhos encontraram o chão e o ar preso em seu peito se soltou rapidamente. – Eu preciso falar com você.
- Eu sei. Por isso você me chamou aqui. – ele arqueou as sobrancelhas. Encarava agora a bochecha dela, que adquiria lentamente um tom rosado de quem estava completamente sem graça.
- É. – ela fechou as mãos em punho, para que parassem de tremer. – Eu não quero piorar essa situação, mas eu não consigo mais ficar quieta.
Pela primeira vez, ele perdeu o ar confiante e o pequeno sorriso em seus lábios vermelhos se desfez. Ela levantou a cabeça.
- Eu sei dos seus planos. Eu sei o que você pretende fazer. E eu não quero te impedir, eu não quero nem de longe te incomodar ou atrapalhar, mas não posso ver você fazendo isso sem que saiba de algumas coisas.
Silêncio.
- Primeiro... eu não quero que você faça isso, nada disso. Do fundo do meu coração, eu quero que você desista e abra um pouco seus olhos. Só um pouco... Eu sei que você esteve cego por muito tempo. Mas não se encante com o que ver primeiro. Espere até ver o que tem depois. – ela sorriu. – Eu sei que não faz sentido... Por enquanto. Mas você vai entender. Veja, - suas mãos voltaram a tremelicar, estiradas no chão gelado. – Eu faço com você o contrário do que gostaria de fazer. Você me conhece ao avesso. Você me tirou a oportunidade de ser quem eu sou. Mesmo sem saber, por sua causa, eu me escondi nessa armadura sempre que você está perto. E agora... Eu estou tirando essa armadura, essa máscara.
Ela procurou os olhos dele, incerta, e eles não expressavam nada, embora tivessem uma intensidade que acelerou seu coração que já batia desgovernado.
Já que tinha começado, precisava terminar.
- Quando eu te bato, eu quero te abraçar. Quando eu zombo o que você fala, é porque eu quero contar algo do meu dia para você. E isso é simplesmente a coisa mais óbvia do mundo. Você nunca percebeu, nunca desconfiou...?
- Eu... – ele procurou palavras. Não achou.
- Não precisa falar, eu ainda não terminei. – ela tomou fôlego. – O que eu quero dizer é que isso já está acontecendo há tempo demais e está me deixando cada vez mais nervosa. Me desculpa se você gosta disso, mas eu simplesmente não posso agüentar mais um dia de luta contra quem eu sou e quem eu queria ser. Então eu estou aqui, de coração aberto, te dizendo o seguinte: eu gosto de você. – foi impossível manter o olhar. Havia muito para falar, e muita vontade de sair correndo. – Eu gosto do seu cabelo, das suas roupas, do seu perfume... Eu gosto da sua voz, do seu jeito, da sua risada. Eu gosto quando você parece gostar de mim – gosto do seu abraço, do seu sorriso para mim, de você me contando suas histórias. E eu só percebo isso quando te perco. Dessa vez, eu sei que é definitivo, por isso estou falando tudo o que sinto, e penso... Eu não quero te atrapalhar. Eu não quero que você se sinta obrigado a algo, que você queira ser educado ou cavalheiro, eu só quero que você saiba. Porque agora sim eu sei que você fará suas decisões em plena consciência de que não precisa correr para a primeira coisa que vê porque é a mais segura... E sim que, se você cair, tem algo para te segurar. Algo que você não vê. Não vê, e nunca viu... Aliás, viu, mas não enxergou. E deixou passar, porque ainda estava cego. A partir de agora, não vou mais te incomodar. Não se preocupe comigo. Eu sei que você não vai. Tchau, então. – ela se levantou.
E ele levantou a voz, e disse algo, mas ela não quis ouvir. Finalmente se soltara do mal.


Nos sonhos.