Mas o primeiro passo para superar é admitir, não é?
Eu não admitiria. Nunca. Não havia o que admitir.Éramos amigos, como todos os outros, e sempre seríamos assim por eu ter um repelente natural contra qualquer cara que tente se aproximar de mim com algumas intenções a mais. Ele não era uma exceção, porque eu não era a regra. Eu estava mais para um fato.
No entanto, eu não podia deixar de imaginar o que não deveria. Meus pensamentos adoravam me trair e eu gostava dessa traição, ainda que no futuro ela fosse responsável por minha nebulosa dor.
Meus problemas mentais vinham em combo. Não era possível que eu tivesse batido a cabeça apenas uma vez.
Eu mal podia esperar a hora de voltar, para vê-lo. Precisava me lembrar do tom de seus olhos, com uma aparência tão palpável quanto o azul do arco-íris, da cor clara e pálida de seu rosto, e de sua voz animada me zombando e depois chamando meu nome ao pé de meu ouvido para pedir desculpas. Mais além disso, eu precisava sentir seu perfume, tão inebriante e refrescante para mim, e sentir seus braços estreitando-se ao meu corpo, num abraço que alcançava também meu coração.
Era o contrário de uma relação de dependência. Eu não precisava dele, mas o queria comigo. Por ser exatamente o errado, me agradava como o que deveria ser certo – algo inegável.
Apesar disso, eu não estava ansiosa para pensar no outro lado. Eu já sabia com quem ele estaria nesse momento... eu era provavelmente a única coisa em sua cabeça. Estava cônscia disso, embora não concordasse.
Nos meus momentos mais loucos, eu desejava entendê-lo. Seus gestos eram contraditórios e me confundiam, deixando um nó no topo de minha cabeça e um frio inimaginável na minha barriga.
Exatamente do jeito que eu gostava."