9.5.10

take my thoughts for what they're worth

Posso falar metaforicamente hoje? Ok, falarei.

A menina ganhou um peixinho. Digo "a" menina porque é uma menina em especial - e digo "um" peixinho porque, no fundo, era apenas um peixinho entre muitos outros. Apesar disso, ele tinha sido escolhido para ela, e isso devia ter alguma razão. A menina, que antes ficava sozinha, passou a desfrutar da companhia do peixinho... Dava comida para ele, dava atenção, brincava. No geral, ele a fazia feliz, e ela se acostumou a todo dia ter o seu peixinho ali, para lhe dar conforto, para estar ali e oferecer sua presença. Era uma pequena fonte de felicidade. Até que um dia apareceu alguém que levou o peixe para outro lugar, deixando a menina sozinha. E ela ficou arrasada. Acostumada com a alegria que seu animalzinho proporcionava, teve que encarar um vazio, um buraco em seu coração - como passar por aquilo? Como se acostumar com a ausência, com a infelicidade, com o fato de não ter mais seu ponto de conforto? Ela não conseguiria! Pelo menos, era assim que pensava.

Então a menina passou a sofrer. Chorou, chorou e chorou, como se aquilo fosse trazer seu peixinho de volta. E nunca trazia. Suas tantas lágrimas, seus dias nublados, seu humor melancólico, sua tristeza não punham nada para preencher o buraco que ficara. Aí ela começou a se acostumar com isso, e passou a buscar alegria em outros lugares, outros horizontes, e achou. Nunca conseguiu tapar o buraco, mas colocou uma folha em cima dele e desviou sua atenção, olhou por outros ângulos, voltou a sorrir.

Até que, de repente, um vento passou, levou a folha que cobria o vazio e lá estava o peixinho novamente, como se nada nunca tivesse acontecido - como se ele não tivesse estado ausente, como se fosse tudo algum grande pesadelo do qual a menina acabara de acordar. Mas... ela poderia, novamente, se acostumar com algo diferente? Apesar de ser o seu peixinho, era o seu peixinho depois de ter ido embora. Não era a mesma coisa, e nunca seria. Ou será que ela nunca tinha realmente se acostumado com sua ausência, apenas aprendido a não focar sua atenção em um só ponto, e agora tinha um conforto a mais bem onde deveria?

Agora, a menina só tem dúvidas. Ela tem medo de o peixinho desaparecer de novo. Ela tem medo de não se acostumar a novamente estar com ele todos os dias. Ela tem medo de gostar mais do seu cachorrinho. Ela não sabe como agir. Ela só sabe pensar, e pensar, e pensar...



E basicamente, a vida é isso. Ela te dá algo, e te tira algo - quando te dá de volta, você fica sem reação.
Ou sem ação.