E nos olhos dela tal tristeza que mal o sorriso a disfarçava. Sorria largo para compensar, mas eu nunca vi olhos tão tristes.
Era como se o peso do mundo todo estivesse apoiado nos seus ombros magros e largos; como uma pessoa tão pequena se colocava numa situação dessas, eu não sabia. Mas seu olhar. Do mais profundo tom de âmbar uma melancolia que trazia certa beleza mas angustiava se encarada longamente. Seu olhar revelava os segredos mais tímidos de uma alma desesperada, outrora iluminadora e íntegra. Seu segredo era que estava em pedaços. Olhos despedaçados, trincados, quebrados em pequenas peças que faziam o mapa impossível de se ler. E assim ela se perdia cada vez mais.
Perguntei-a o que lhe acontecia. Queria partilhar da dor. O sorriso no canto dos lábios era o único resquício de esperança. Estou perdida em mim mesma, ela me disse. Querem me ver inteira mas eu nem sei onde deixei meus próprios pedaços. Enganei a Tristeza por muito tempo e agora ela me achou. Ela veio se vingar.
Eu podia ver a mão de veludo negro segurando seu ombro, leve como pena mas com o peso de um universo todo. Tanta felicidade tem preço, ela sussurrava. Lenta e pacientemente ela pronunciava cada palavra que soava como a melodia mais triste.
E olhando bem nos olhos dela, eu quase conseguia ver minha reflexão. Vazios. Entorpecidos. E ainda assim indicando a imensa distância que me separava do entendimento. Às vezes, ela me disse, não há como entender a tristeza das pessoas. Cada uma tem seu jeito de sofrer, seu motivo, sua razão. Obrigada por pensar em mim mas me deixe - não estarei sozinha. A tristeza ama companhia.